Friday, November 30, 2007

Fala de Essomerick - MULHER AO MAR

FALA DE ESSOMERICQ
( MULHER AO MAR)
Rua do Bom Jesus em tarde de domingo
tambores e clarins
frevo e maracatu
Mama África
chegou acorrentada como escrava
hoje seu rosto é como um selo em minha pátria
Rua do Bom Jesus em tarde de domingo
a multidão dança na rua
lá vou eu
santa pobreza em traje de rainha
lá vou eu
tua alegria de tambor me ressuscita
tua alegria de clarins pela calçada
cabeças degoladas como máscaras
são os homens que amei
em submisso ritual antropofágico
canibais anteriores a Montaigne
são os náufragos da baía de Audierne
e o teu silêncio te doeu em tua terra ó Goneville
porque ele era a voz de Caliban desesperado
contra a ocupação das Américas
poderoso Goneville
eu sou carijó e devo retornar à minha tribo
Martinho de Nantes
eu sou cariri e devo retornar ao meu Recife
Villegagnon da Bretanha
eu sou carioca e quero voltar ao Rio
à França Antártica, à França Equinocial
aos braços de Azenor, Levenez e Riwanon
por isso ensina-me a escrita
Jean de Léry
que eu sou tupiniquim
ensina-me a bruxaria do papel que fala
as palavras francesas derivadas do tupi
ensina-me tua ciência
Lévy-Strauss
que eu sou tupinambá
e te devolvo a infância
Marcel lProust
e te devolvo o sonho
mon Ronsard
com o feitiço do açúcar
nos sentidos
eu te devolvo
le tranquille repos de la première vie
viens dans ma chaumière
dedans il fait si bom
reste ici
e então tu me pediste
reste ici
e então tu me rogaste
um peu de bonheur
mais je suis le beau sauvage
e estive em Nantes
ó Júlio Verne
só para te dizer
que lá em Olinda
eu conduzi vraiment
uma jangada nordestina
era o vento em meu rosto
la tempête
era o sol sobre a pele
entre os navios
je suis desamparée
mulher ao mar
j’ai besoin de secours
mulher ao mar
ó bravo vento forte
Pernambuco
corsária veli vaga
no drakar
canoa gôndola
rabelo balandra
zambra sultana
arvingel baidar
minha jangada
a bombordo
a estibordo
barca de luzes
leito de farol
a torre cor de rosa
aos pés do cais
livre de rebocadores
vem visitar
ó Goneville
a Vênus prisioneira
deitada sobre a espuma
de um trapézio de plumas
sou tapuia
somos todos filhos de Saturno
e eu reúno as tuas partes decepadas
Yemanjá em noite de oferenda

mulher ao mar.

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